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sexta-feira, 7 de junho de 2013

Mostra "É Proibido, Mas... A Rainha Pode !"

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 Os 20 livros desta Mostra compõem uma coleção desenvolvida desde 1755 e que pertenceu, sucessivamente, aos reis de Portugal D. José I, D. Maria I e D. João VI.

 D, Maria I, a ‘Piedosa” (mulher religiosa, de muita fé) ou a “Louca” (conforme diagnóstico médico que colocou Portugal sob o governo do Príncipe Regente D. João) foi a mais longeva das proprietárias da Real Bibliotheca, desde 1777, quando foi coroada, até 1816, quando faleceu. Então, a coleção passou a pertencer a seu filho D. João, coroado após um ano de luto, em 1817, e que vendeu a Bibliotheca ao Governo Imperial Brasileiro, em 1825, dando início à Biblioteca Imperial e Publica da corte – a atual Biblioteca Nacional brasileira.
 Associar o título de Piedosa e o de Louca à longeva propriedade e guarda de livros proibidos pode parecer, mas não é uma contradição.
 Dona Maria herdou a biblioteca de seu pai, D. José I, a mesma biblioteca construída por incorporação de grandes coleções desde o terremoto de 1755, que destruiu a biblioteca deixada por seu avô, D. João V.  São tantos e surpreendentes os livros proibidos por leigos, religiosos e até por ela mesma que é encantador descobrir, ainda vivos, títulos condenados a pena do fogo ou do silêncio, há mais de 200 anos.
 Provavelmente, os livros foram incorporados aleatoriamente, “perdidos” no volume das muitas coleções incorporadas após o terremoto – isso explicaria a convivência inusitada nas estantes e cofres de editais de censura e edições do Index Librorum Prohibitorum(Índice dos livros proibidos pela Igreja Católica) com livros arrolados como proibidos, em sucessivas edições. 
Provavelmente, os Bibliotecários da Real Bibliotheca não se ocuparam desses livros, cientes de que a História testemunha a mudança de opiniões e que o que era pernicioso num tempo poderia ser cultuado no outro; ou melhor, se ocuparam deles, mantendo-os “escondidos” na Bibliotheca – isso explicaria o estado de deterioração dos exemplares… Afinal, que bibliotecário ousaria solicitar recursos para preservar uma obra “marcada para queimar”? 
Provavelmente, os livros foram “escondidos” pelos Bibliotecários e, em parte, ainda permanecem assim, com catalogações que não revelam autores que caíram “em danação”, com anotações que expurgam passagens consideradas nefandas; com marcações de leitura, que expressam auto-censura (do editor, do autor, do leitor da época) – isso explicaria o ineditismo dessas obras no contexto da pesquisa e da recuperação de informações sobre o pensamento e as ideias que, um dia, construíram as mentalidades de colonizador e colonizado e constituíram o fundamento para o Império Brasileiro. 
Diante de tantas possibilidades, esses livros oferecem uma certeza: sobreviveram! Estão aqui, a despeito das intempéries de sua própria existência – condenação de seus autores, inconstância e insegurança de seus possuidores, ignorância de seus perseguidores, manuseio inadequado por seus leitores, além de variações climáticas, fundos de baús, balouçar de navios, porões infestados de roedores e insetos, censuras, censores… Aí estão, visíveis, legíveis e, boa parte, em processo de restauração, porque são livros que a fé e a loucuratransformaram em raridades.
Ana Virginia Pinheiro
Bibliotecária
Chefe da Divisão de Obras Raras
24 maio 2013
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Mostra “É proibido, mas… a Rainha pode!”
Data: 24 de maio a 5 de julho de 2013
Horário: Segunda a sexta-feira de 10h as 18h
Entrada Franca
Local: Fundação Biblioteca Nacional – 3º andar – Obras Raras (Av. Rio Branco, 219 – Centro – Rio de Janeiro)