"O projeto da década de 50 do governo Vargas marcou uma arrancada desenvolvimentista não só no aspecto econômico, mas também na dimensão social. A ENSP, portanto, tem essa simbologia: nasce no cerne do desenvolvimento brasileiro como um projeto de nação". O contexto vivido pelo país no bojo da criação da Escola Nacional de Saúde Pública, em 1954, e marcado pela criação do BNDE, CNPq, Petrobras e também do Ministério da Saúde, citados na fala do ex-professor da Eduardo Costa, norteou a abertura das comemorações dos 60 anos da instituição, na quarta-feira (3/9). A solenidade homenageou todos aqueles que contribuíram para a consolidação da ENSP como principal Escola de Saúde Pública da América do Sul, além de relembrar sua jornada nos primeiros anos de criação.
O seminário Nascer e crescer em tempos difíceis: a jornada da ENSP de 1954 a 1979 deu início às comemorações dos 60 anos da Escola. A atividade, coordenada pelo ex-diretor da ENSP, Luiz Fernando Ferreira, foi apresentada por Eduardo Costa e debateu oPeríodo 1954-1969 (do suicídio de Vargas à “eleição” de Médici) – Do nascimento à violação.
Convidado a participar da primeira mesa, o jornalista José Augusto Ribeiro, autor dos três volumes do livro A Era Vargas, falou sobre o momento de 1950 a 1954. Ele, que disse ter encontrado poucos registros sobre o campo da saúde pública nas pesquisas para escrever os livros, tentou situar alguns aspectos que motivaram o segundo governo Vargas. “Diria que o projeto nacional o qual se inseriu a criação do Ministério da Saúde, e dias depois de seu suicídio, há exatamente há 60 anos, a criação da ENSP, eram estimulados pelo presidente Getúlio desde a sua juventude. Essa inspiração buscava a independência econômica do Brasil. Isso porque a nossa independência política, proclamada em 1822, não foi um episódio isolado. A independência política, até hoje, tanto tempo depois, ainda não é completa porque a nossa independência econômica não atingiu essa forma”.
E foi nesse contexto que emergiu a reestruturação do então Ministério da Educação e Saúde. “A proposta era incluir a pasta da Saúde no novo Ministério dos Serviços Sociais, que abrangeria a saúde e outras iniciativas. Esse projeto de reforma foi bloqueado no congresso porquê despertava resistência e interesse de diferentes lados. Acabou sendo aprovado um projeto isolado que criou o Ministério da Saúde”, lembrou.
Esse movimento, porém, não exigiu tanta mobilização quando a campanha do “Petróleo é Nosso”, justificou o jornalista. “Confesso que nos longos anos de pesquisa para escrever meu livro, encontrei pouca informação sobre a área da saúde pública. Talvez porque ela fosse menos controversa que a questão do petróleo, da Petrobras, do Plano do Cartão Nacional e a criação da Eletrobrás. E isso não aconteceu apenas comigo, mas também com outros autores. O projeto nacional o qual se inseriu a criação do Ministério da Saúde, não exigiu tanta mobilização quanto a campanha do Petróleo é Nosso!”
Na sequência, Jorge Valadares recordou os primeiros momentos como pesquisador da Escola Nacional de Saúde Pública. Muito emocionado e dizendo que voltar à ENSP lhe trazia a mesma sensação de voltar à casa dos pais, agradeceu ao diretor. “Com esse movimento, o Hermano está retomando algo importante na criação desta casa: o sonho. E para falar do que representou o sonho de fundar essa Escola, é necessário citar o professor Edmar Terra Blois. Esse prédio era um esqueleto abandonado, e Blois, ligado ao Marcolino Candau, que ocupou a direção geral da Opas, nos trouxe para essa sede”, disse. O convidado ainda afirmou que relembrar o passado gera o autorrespeito, e citou novamente a casa paterna. “Encontro ex-alunos, professores, pesquisadores de todo Brasil e muitos são ligados à Escola Nacional de Saúde Pública até hoje”.
O jornalista Arthur José Poerner, último a se apresentar e autor do livro O poder jovem, destacou a importância da ENSP no cenário nacional. Ele, que foi jornalista do Correio da Manhã, na década de 60, discorreu sobre sua prisão na redação do jornal, em abril de 1970, e do exílio na Alemanha, onde chegou a se tornar redator e locutor da rádio.
A abertura
A solenidade de abertura das comemorações dos 60 anos da ENSP reuniu o diretor da Escola, Hermano Castro, o presidente da Fiocruz, Paulo Gadelha, o secretário de Estado de Saúde do Rio de Janeiro, Marcos Esner Musafir, o secretário Municipal de Saúde do Rio de Janeiro, Daniel Soranz, a presidente do Cebes, Ana Costa, a conselheira da Abrasco e professora do IESC/UFRJ, Ligia Bahia, e a vice-presidente da Asfoc, Justa Helena Franco. Durante a atividade foi exibido um trecho do documentário ENSP: uma história de cidadania, que será apresentado na íntegra na sexta-feira (5/9).
Hermano, que destacou a capacidade de renovação da Escola ao longo dos 60 anos, assegurou que a história da ENSP se confunde com a saúde pública brasileira. “A história da ENSP é constituída por cada um de vocês presentes nesse auditório, pelos alunos e pesquisadores que passaram e passam por aqui todos os dias. Apesar dessas seis décadas, digo que somos tão jovens porque nos reinventamos a todo tempo. A história dessa instituição se confunde com a trajetória da saúde pública brasileira, cumprindo o desafio de buscar uma melhor qualidade de vida e uma sociedade mais justa, onde todos tenham saúde”.
O presidente da Fiocruz, empolgado com as atividades culturais dos 60 anos da ENSP, enalteceu o clima de alegria, emoção e reconhecimento das trajetórias na saúde pública. “A Escola possui a tradição de reconhecer as ações do passado e beber desse legado para construir seu futuro. A programação é uma forte evidência disso”.