O Instituto Brasileiro de Economia da FGV (IBRE) realizou, no último dia 4 de março, o seminário “O novo governo da Argentina: lições para o Brasil”. O evento teve como objetivo debater as mudanças econômicas em curso no país vizinho e as principais lições de fundo macroeconômico que podemos extrair para o Brasil, imerso em crise econômica e política.
Embaixador do Brasil na Argentina de 1992 a 1997, Marcos Azambuja fez a abertura e mediação do evento. O diplomata destacou que, com a eleição de Maurício Macri para presidente, o país vizinho está vivendo novamente uma saída da moldura peronista e justicialista. “Não há experiência na Argentina que não encontre eco no Brasil e vice-versa. Os dois países passam por dificuldades. Comemoro a chegada do novo presidente argentino. A Argentina sempre dá boas lições ou maus exemplos”, disse.
O embaixador passou a palavra para o professor e economista Guillermo Rozenwurcel. Membro do Club Político Argentino, professor titular na Facultad de Ciencias Económicas da UBA e na Escuela de Política y Gobierno da Universidad San Martin, ele destacou que Macri não vem do radicalismo nem do peronismo, o que é uma novidade que pode trazer mais estabilidade para o país, mas que é preciso ter cautela.
Segundo Rosenwurcel, o novo governo pode representar outro ciclo de ilusão e desencanto ou um novo começo de fato. Ele contextualizou os 50 anos que antecederam o governo Cristina Kirchner e a alta volatilidade da economia do país e seus ciclos, que em geral duram 12 anos, com picos de crescimento, queda e crises profundas. O economista argentino disse ainda que a herança deixada pela ex-presidente é de uma inflação de 25% em 2015, PIB per capita em queda, deterioração da balança comercial e interrupção da melhora dos índices de pobreza.
“O governo Cristina Kirchner conseguiu adiar uma crise, uma bomba de tempo que ficou para o novo governo, que vive um conflito entre expectativas e possibilidades e um dilema entre as necessidades econômicas de fazer um ajuste e a necessidade política de negociar com o legislativo onde o governo é minoria”, destacou.
Rosenwurcel destacou ainda que o desafio principal do governo Macri é a relação entre taxa de câmbio e inflação. Segundo ele, a expectativa do governo é que o aumento no nível de preços fique entre 20% e 25% em 2016 e que a economia encolha em 1%.
O evento teve sequência com os comentários do economista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), Fabio Giambiagi. Ele destacou que o governo Macri está estabelecendo canais de diálogo com a oposição, pois vai precisar da cooperação do Peronismo para sair da crise financeira. Para ele, mitigar as brigas e manter uma equipe minimamente coesa é essencial.
“O Macri não gosta de falar do passado e como a Cristina Kirchner conseguiu levar o governo sem que a crise fosse aparente para grande parte da população, corre-se o risco de, caso as coisas não deem certo, ele não conseguir se desvincular disso”, alerta.
Já Victoria Werneck, do ICATU Seguros, apresentou a visão do mercado financeiro sobre a Argentina hoje e no passado. Ela destacou que os “queridinhos” dos investidores atualmente são países que integram a Aliança do Pacífico – Chile, Colômbia, Peru e México – com taxas de inflação inferiores a 5% e dívida pública relativamente baixa. No outro extremo estão os países do Atlântico Sul, mais especificamente Brasil, Argentina e Venezuela, com inflação alta (10%, 30% e 190%, respectivamente) e alto endividamento.
“Vemos a Venezuela insistindo em uma política que não deu certo. O Brasil vem fazendo a mesma coisa. A Argentina, com Macri, parece ir para um caminho diferente. Se há segurança jurídica e regulatória, os investidores voltam. A Argentina já está inclusive competindo com o Brasil e sua política econômica e fiscal desastrosa. O Macri me parece muito preocupado com o que o mundo pensa e isso é muito importante”, disse.
Para encerrar o evento, o embaixador Marcos Azambuja destacou que a América Latina vive o fim de um ciclo populista e que o governo de Mauricio Macri vive um momento de oportunidades.
“Macri começou bem e há um crédito de confiança por parte de todo o mundo. O Brasil claramente não vai bem, de modo que precisamos fazer um grande ajuste. Ainda teremos grandes turbulências no Brasil e parece que finalmente nos demos conta da gravidade da situação. A Argentina virou a página. No Brasil ainda estamos encerrando um ciclo”, concluiu.